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Anime sua próxima reunião virtual da firma com uma cabra de verdade Um artigo sobre AI publicado num grande jornal científico estava cheio de frenologia 12 argumentos que todo negacionista do clima usa – e como refutá-los 16 maneiras simples de apimentar o sexo baunilha ‘Among Us’ não é só o jogo de 2020, é ‘2020: O Jogo’ Quem curte filmes de terror está lidando melhor com a pandemia, diz estudo A máfia italiana está no TikTok O estupro roubou meus orgasmos. Foi assim que eu os consegui de volta A quarentena me ajudou a entender melhor minha identidade de gênero
A pandemia criou um novo tipo de ‘medo de estar perdendo’
Hannah Smothers · 2020-09-19 · via Portuguese - VICE

Uma noite um tempo atrás, visitei todos os meus amigos, e com isso quero dizer: cliquei no pequenos círculos com as caras deles no topo da minha página do Instagram, sentada na cama e bebendo vinho. Desde que a pandemia começou, me encontrei com, no máximo, umas quatro pessoas. Estritamente os melhores amigos (vamos chamar de “amigos nível A”). Clique e cliquei, e assisti as fotos na tela se tornarem monótonas. A mesma foto, ligeiramente cortada, apareceu três vezes em seguida: um sinal de um encontro de grupo… Acontecendo sem mim.

A foto era um prato de queijos, com legendas misteriosas em cada Story, que imaginei todos eles compartilhando e rindo. Uma das minhas melhores amigas estava se encontrando com outra melhor amiga dela e alguns amigos meus não tão próximos assim (amigos nível C), e lá estava  eu, visivelmente excluída. Passei por todas as emoções apropriadas: mágoa, desprezo, raiva, fúria cega, insegurança, ódio de mim mesma, e acabei no MEP (aquele Medo de Estar Perdendo a diversão). Levou alguns momentos para meu cérebro acordar para o triste fato da nossa realidade atual, e nesse ponto entrei na rota de aceitar que simplesmente estava perdendo mesmo.

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Como não podemos nos encontrar com segurança com mais do que poucas pessoas de uma certa distância, isso significa que eu (como todo mundo que não está descaradamente quebrando a quarentena) não tenho me encontrado com qualquer um que simplesmente “acho legal” — tipo, uma pessoa não tão próxima ao ponto de fazer planos juntos, só encontrar por acaso em festas — há meses. A última vez que perguntei, sinceramente, pra alguém “O que você anda fazendo?”, provavelmente foi em outra vida. A pandemia reduziu nosso círculos sociais para a circunferência de um palito de dente.

E por uma boa razão: distanciamento social, limitar contato com outras pessoas e usar máscara/ficar ao ar livre durante qualquer interação pessoalmente, são algumas das melhores ferramentas para evitar que mais gente fique doente. Bares e festas na casa das pessoas — locais perfeitos para se atualizar sobre a vida das pessoas que você meio que conhece e gosta, mas também não pensa muito — continuam sendo foco de surtos de COVID, e portanto são eticamente proibidos.

https://twitter.com/alanna/status/1302799209876385792

Sinto falta dos meus amigos nível C… espero que eles também estejam sentindo minha falta.

Mas a realidade das redes sociais significa que todos esses encontros para os quais não fui convidada, e nem devia esperar ser convidada, são documentados, e a natureza do isolamento relativo significa que tenho muito tempo para passar por todos os feeds das contas que sigo, me sentindo mal.

Sinto falta dos meus amigos nível C, mas eu arriscaria minha vida (e, por associação, a vida da minha colega de apartamento, do meu parceiro, dos trabalhadores essenciais com quem interajo no mercado, etc.) por eles? Claro que não. Do que a gente poderia falar, nesses momentos finais antes de potencialmente pegar uma doença fatal??? Que não sei quem quebrou a quarentena para ficar com não sei quem? A trilha sonora do Selling Sunset??? Do que diabos as pessoas estão falando hoje??? Ainda assim, saber e aceitar isso como aceito não me impede de cair no medo de que esses três amigos próximos ou não tão próximos me odeiam, só porque não vejo eles há meses.

E não sou a única. Minha colega jornalista Katie Way caracterizou essa cepa aguda e precisa de MEP assim: “Sinto que estou me tornando uma pessoa desagradável de conviver”.

E claro que ela está errada e continua sendo um prazer conviver com ela, pra mim, mas ela levanta uma questão válida: conversas casuais parecem muito com um jogo de “use ou perca”, e este tem sido um ano muito solitário e isolado para muitas pessoas que antes eram bem sociais. Não poder conversar qualquer merda com conhecidos significa que nossa habilidade de ser alguém “divertido” de conviver está se atrofiando? Ou só estamos sentindo a falta de oportunidades de conversar no fundo da nossa alma?

Talvez nenhum dos nossos amigos de nível B, C, D, etc. realmente odeie a gente; eles simplesmente esqueceram que existimos num sentido material. Ou talvez eles estejam lá sabendo igualmente que não vão nos convidar para a casa deles, mas desejando que a gente pudesse se trombar numa festa para elogiar o cabelo e maquiagem um do outro, contar como estamos nos sentindo ultimamente, e ir embora, experimentando o leve barato de se dar bem com outra pessoa.

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